A Samsung realizou mais uma edição do Galaxy Unpacked, desta vez de forma simultânea em Nova York e Londres. Mas o evento foi muito além de apenas mostrar uma nova geração de smartphones. Foi uma oportunidade estratégica para a empresa reforçar sua liderança no mercado de aparelhos dobráveis, justamente a poucas semanas do lançamento esperado do primeiro iPhone dobrável da Apple.
Com o Galaxy Z Fold8 Ultra, o Galaxy Z Fold8, o Galaxy Z Flip8, além dos relógios Galaxy Watch Ultra2 e Galaxy Watch9, a Samsung montou seu portfólio de dobráveis mais maduro e completo até hoje. E, de quebra, deixou clara sua visão maior: a de que a inteligência artificial está se tornando a base de todo o ecossistema Galaxy. Vamos entender o que essa investida representa e por que ela coloca uma pressão e tanto sobre a concorrência.
Uma linha de dobráveis mais completa e diversa
Depois de quase oito anos de atualizações graduais, a linha de dobráveis da Samsung finalmente deixou de parecer uma categoria experimental para se firmar como uma família completa de smartphones premium. A grande mudança de estratégia é que, em vez de oferecer basicamente o mesmo aparelho para todo mundo, a empresa agora aposta em três experiências bem diferenciadas.
O Galaxy Z Fold8 Ultra é voltado a profissionais e criadores de conteúdo que querem a maior tela, o sistema de câmeras mais avançado e a máxima capacidade de multitarefa. Já o Galaxy Z Fold8 mira quem deseja boa parte dos benefícios de um dobrável no estilo livro, mas sem precisar chegar ao território “Ultra”. Vale destacar que sua proporção de tela mais amigável — especialmente para assistir a vídeos e streaming — pode torná-lo atraente para um público mais amplo do que o Fold8 Ultra.
O Galaxy Z Flip8, por sua vez, segue conquistando quem valoriza portabilidade, estilo e criação de conteúdo para redes sociais acima da produtividade máxima. Segundo a Samsung, essa diversificação é uma evolução natural, que reconhece uma verdade simples: não existe um único tipo de dobrável capaz de agradar a todos os consumidores.
A empresa também merece crédito por continuar aprimorando os fundamentos que mais importam na hora da compra. Os aparelhos estão mais finos, mais leves, mais duráveis, mais brilhantes e mais bem otimizados para multitarefa do que nas gerações anteriores. Isoladamente, essas mudanças até parecem pequenas, mas somadas fazem os dobráveis de hoje parecerem bem mais refinados do que os produtos que a Samsung lançava poucos anos atrás.
Qualcomm: a parceira estratégica mais importante da Samsung
Embora boa parte dos holofotes tenha ficado sobre o hardware, um dos nomes mais importantes do evento foi a Qualcomm. A parceria entre as duas empresas segue se aprofundando, com as plataformas Snapdragon movendo praticamente todos os produtos de ponta que a Samsung apresentou.
O Galaxy Z Fold8 Ultra, o Galaxy Z Fold8 e alguns modelos do Galaxy Z Flip8 serão equipados com o Snapdragon 8 Elite Gen 5 for Galaxy. Os dois novos relógios estreiam a plataforma Snapdragon Wear Elite, e o Snapdragon AR1 Gen 1 vai servir de base para os futuros óculos inteligentes que a Samsung desenvolve em parceria com o Google.
Essa relação vai muito além de um fornecedor tradicional de processadores. Na prática, o Snapdragon é a plataforma de computação que sustenta toda a estratégia de IA da Samsung, abrangendo smartphones, wearables e os futuros dispositivos de realidade estendida. Cristiano Amon, presidente e CEO da Qualcomm, resumiu essa visão ao afirmar que estamos entrando em uma nova era da IA, na qual a inteligência passa a ser incorporada aos dispositivos pessoais que as pessoas usam ao longo de todo o dia. Segundo ele, a parceria com a Samsung está viabilizando uma IA mais natural e ciente de contexto em todo o ecossistema Galaxy.
Isso reflete uma tendência maior do setor. Desempenho já não é mais só velocidade de processador ou capacidade gráfica. Hoje, os fabricantes de chips são avaliados também por quão bem conseguem sustentar experiências de IA inteligentes e personalizadas, que transitam com fluidez entre vários aparelhos.
A inteligência artificial no coração da experiência Galaxy
A Samsung dedicou boa parte da apresentação para mostrar como o Galaxy AI está deixando de ser um conjunto de funções isoladas para se transformar em um assistente inteligente, capaz de ajudar o usuário de forma proativa ao longo do dia. Recursos como o Now Brief, o Now Nudge e o Gemini Intelligence foram apresentados como exemplos dessa lógica: reduzir o atrito ao trazer informações relevantes na hora certa, antecipar próximos passos e ajudar a concluir tarefas com menos interações.
TM Roh, CEO da Samsung e responsável pela área de experiência do dispositivo, tocou nessa visão mais ampla durante o evento. Para ele, à medida que a IA se torna mais agêntica, os aparelhos móveis vão se transformar no portal mais pessoal para experiências que entendem e se adaptam a cada usuário. Ou seja, a empresa não enxerga mais a IA como um recurso extra, e sim como a camada que conecta celulares, relógios e, em breve, óculos inteligentes em um ecossistema coeso.
Vencer a batalha do hardware não é suficiente
Nem tudo, porém, foi totalmente convincente. Um ponto que ficou um pouco a desejar na apresentação da Samsung foi justamente explicar por que os dobráveis melhoram, de forma fundamental, a experiência do dia a dia com o smartphone.
A empresa demonstrou multitarefa, jogos, fluxos de trabalho assistidos por IA e consumo de mídia em telas maiores — todas vantagens legítimas. Mas o foco recaiu mais sobre os recursos em si do que sobre o motivo pelo qual um dobrável melhora, de forma concreta, a vida do consumidor comum.
E é aqui que mora um alerta interessante. Contar histórias é uma das grandes forças da Apple. A empresa costuma se preocupar menos com proezas de engenharia e mais em mostrar como a tecnologia muda o comportamento cotidiano das pessoas. Se a Apple realmente lançar um produto dobrável ainda este ano, é de esperar que ela dedique bem mais tempo a explicar por que alguém iria querer um aparelho desses, em vez de apenas listar o que o hardware é capaz de fazer. A Samsung praticamente venceu a batalha da engenharia. O próximo desafio competitivo tende a ser a narrativa e a capacidade de comunicar um modelo de uso realmente convincente.
Relógios avançam rumo à saúde preventiva
Os dobráveis podem ter roubado a cena, mas os anúncios de smartwatches também merecem atenção. O Galaxy Watch Ultra2 e o Galaxy Watch9 dão continuidade à transição da Samsung, que sai do simples monitoramento de atividades físicas para um acompanhamento de saúde mais proativo e movido por inteligência artificial.
O Galaxy Watch Ultra2 roda na nova plataforma Snapdragon Wear Elite e traz uma bateria bem maior, uma tela mais brilhante de 5.000 nits, melhorias para corrida em trilha, recursos exclusivos de mergulho desenvolvidos com a Mares e análises de saúde mais avançadas com apoio de IA. O Galaxy Watch9 herda muitas dessas melhorias de processamento, mas voltado a um público mais amplo, com bateria maior e uma experiência repaginada do Samsung Health.
O mais notável é que o ecossistema de saúde da Samsung começa a ir além da simples coleta de dados biométricos. O novo software foi pensado para ler esses dados, identificar tendências e oferecer recomendações que ajudam o usuário a evoluir ao longo do tempo. Essa mudança rumo ao bem-estar preventivo talvez seja, no longo prazo, mais valiosa do que qualquer especificação isolada de hardware.
Considerações finais: a bola está com a Apple
No conjunto, a Samsung entregou um dos Galaxy Unpacked mais fortes dos últimos anos. Houve melhorias concretas em todo o portfólio de dobráveis, avanços relevantes na estratégia de IA, expansão das capacidades dos relógios e o aprofundamento da já antiga parceria com a Qualcomm. Os anúncios consolidam a liderança da empresa nos dobráveis e ampliam seu ecossistema conectado por IA, abrangendo smartphones, wearables e os futuros óculos inteligentes.
A grande dúvida que fica é se a Samsung não traçou uma linha agressiva demais entre o Fold8 e o Fold8 Ultra. Um smartphone de 1.899 dólares com um sistema de câmeras não tão brilhante pode deixar alguns compradores premium questionando o custo-benefício, sobretudo se a Apple adotar uma abordagem diferente com seu esperado dobrável.
Ainda assim, os anúncios representam um marco importante para o mercado. A Samsung mostrou que a tecnologia dos dobráveis já não é experimental. E se a estreia esperada da Apple, prevista para setembro, ampliar a consciência do público sobre a categoria, as duas empresas juntas podem finalmente dar a esse segmento o impulso que ele buscava havia anos. A tecnologia deixou de ser o maior obstáculo. A pergunta que resta é se os consumidores enxergarão valor suficiente para justificar os preços premium dos dobráveis.
A jogada, agora, é sua, Apple.
