A busca por computadores quânticos comerciais enfrenta um dos maiores desafios da computação moderna: a redução das taxas de erro dos qubits — equivalentes quânticos dos bits tradicionais. Recentemente, a IBM anunciou um avanço significativo ao executar seu algoritmo de correção de erros em chips comerciais da AMD, demonstrando desempenho superior ao esperado.
Um marco na correção de erros quânticos
Em um artigo publicado no repositório científico arXiv, pesquisadores da IBM revelaram que conseguiram rodar seu algoritmo de correção de erros quânticos em chips FPGA da AMD — um tipo de hardware reconfigurável amplamente utilizado na indústria.
O mais impressionante é que o algoritmo operou dez vezes mais rápido do que o necessário para acompanhar um computador quântico em tempo real.
Segundo Rebecca Krauthamer, CEO e cofundadora da QuSecure, essa conquista é relevante por antecipar parte das metas traçadas pela IBM para o desenvolvimento de seu supercomputador quântico Starling, previsto para 2029.
“A IBM é conhecida por cumprir seus cronogramas na área de computação quântica. Este avanço mostra que a empresa pode estar até um ano à frente no quesito correção de erros”, afirmou Krauthamer.
O novo decodificador Relay-BP
Anteriormente, a IBM havia proposto um decodificador chamado BP+OSD, responsável por processar dados clássicos em paralelo com o algoritmo quântico, identificando quais correções aplicar.
No entanto, esse modelo apresentava duas limitações: baixa precisão e lentidão no processamento, o que impactava o desempenho geral do sistema.
De acordo com Diego Ruiz, físico da startup Alice & Bob, sediada em Paris, “a lentidão do decodificador podia reduzir exponencialmente a velocidade de um computador quântico”.
Para resolver esse problema, a IBM desenvolveu o Relay-BP, um novo decodificador mais rápido e preciso. Ao implementá-lo em chips AMD FPGA, a empresa comprovou que o desempenho é suficiente para acompanhar a velocidade dos processadores quânticos — eliminando um dos principais gargalos técnicos da área.
O papel dos computadores clássicos na era quântica
Esse avanço reforça a importância dos computadores clássicos no suporte à computação quântica. Segundo Izhar Medalsy, CEO da Quantum Elements, a integração entre ambos será essencial no futuro.
“A evolução dos sistemas quânticos depende diretamente das capacidades de computação clássica”, destacou.
A IBM demonstrou que o hardware tradicional pode simular e otimizar fluxos de correção de erros quânticos antes restritos a pequenos processadores quânticos.
Para Simon Fried, vice-presidente da Classiq, esse resultado evidencia o progresso no software de controle e modelagem, que é crucial para a escalabilidade.
“Trata-se de uma melhoria na integração entre as camadas clássica e quântica, essencial para o avanço da tecnologia”, explicou.
Ainda assim, Fried ressalta que o principal desafio continua sendo o hardware — qubits estáveis, arquiteturas escaláveis e limites de erro confiáveis.
Prazos e expectativas
Nem todos os especialistas concordam com o cronograma de 2029.
Roger Grimes, conselheiro de segurança da KnowBe4, acredita que computadores quânticos práticos podem surgir já no próximo ano.
“Há muitos avanços paralelos acontecendo. A contribuição da IBM é importante, mas é apenas uma parte de um esforço global muito maior”, afirmou.
Segundo ele, a utilização de chips binários mais baratos para correção de erros é positiva, mas o custo não será um fator decisivo para empresas que buscam desempenho máximo.
A parceria entre IBM e AMD
Analistas também observaram que essa conquista fortalece a parceria entre IBM e AMD.
De acordo com Luke Yang, da Morningstar Research Services, o uso de FPGAs é uma escolha estratégica, já que esses chips são ideais para testes e prototipagem devido à sua flexibilidade.
“Os FPGAs são mais acessíveis que chips quânticos dedicados, mas ainda assim mais caros que CPUs ou GPUs convencionais. Sua inclusão nos sistemas quânticos representa um passo importante na redução de custos”, avaliou Yang.
Mesmo assim, ele observa que o avanço não significa uma adoção em massa imediata, já que ainda faltam aplicações comerciais viáveis para o atual estágio da tecnologia quântica.
Impactos na segurança quântica
Do ponto de vista da cibersegurança, o progresso da IBM também acende alertas.
Philip George, estrategista técnico da Merlin Cyber, destaca que a utilização de chips amplamente disponíveis pode acelerar a chegada de computadores quânticos capazes de quebrar sistemas criptográficos atuais.
“Se esse método se mostrar viável, governos e empresas podem ter ainda menos tempo para adotar padrões de segurança quântica”, advertiu.
Jason Soroko, pesquisador da Sectigo, complementa que a implementação de um loop de correção de erros em tempo real usando chips AMD FPGAs demonstra que o controle clássico dos sistemas quânticos está se tornando mais maduro e acessível.
Isso reduz custos, amplia a escala de produção e aproxima a tecnologia de práticas comuns em data centers.
No entanto, ele alerta que, ao depender de componentes comerciais, também aumenta-se a superfície de ataque, incluindo vulnerabilidades em firmware, drivers e interfaces físicas.
Um avanço que acelera a corrida quântica
A conquista da IBM simboliza mais um passo na corrida pelo domínio da computação quântica.
De acordo com Krauthamer, os sinais de progresso estão se tornando cada vez mais frequentes.
“O que antes eram anúncios esporádicos agora ocorre semanalmente. Os cronogramas estão acelerando, e isso reforça a urgência em migrar para padrões de segurança pós-quântica”, concluiu.
