Enquanto gigantes como Google e OpenAI disputam quem domina o mercado global de inteligência artificial, a América Latina decidiu seguir um caminho diferente: criar sua própria IA aberta, feita por e para a região. Essa é a proposta do Latam-GPT, um modelo de linguagem em desenvolvimento pelo Centro Nacional de Inteligência Artificial do Chile (CENIA) em parceria com universidades, governos e instituições de vários países.
A ideia é simples e poderosa: construir uma IA que entenda melhor nossa cultura, nossos idiomas e nossos desafios, ao invés de depender apenas de ferramentas criadas com foco em outras realidades, como a dos Estados Unidos ou da Europa.
O que é o Latam-GPT?
O Latam-GPT é um modelo de linguagem de código aberto, ou seja, qualquer pessoa ou instituição poderá usá-lo e adaptá-lo. Ele está sendo treinado com dados de 20 países da América Latina e também da Espanha, reunindo mais de 2,6 milhões de documentos — de livros e artigos a conteúdos digitais locais.
Para se ter uma ideia da escala: são oito terabytes de texto, o equivalente a milhões de livros, que deram origem a um modelo com 50 bilhões de parâmetros — um tamanho comparável ao GPT-3.5, usado em várias aplicações conhecidas de IA.
Segundo Álvaro Soto, diretor do CENIA, o grande diferencial é que o Latam-GPT terá mais profundidade em temas regionais. Enquanto modelos comerciais podem te responder sobre “George Washington” quando você pergunta sobre educação, o Latam-GPT deve trazer referências mais próximas, como figuras históricas e culturais da América Latina.
Por que isso importa?
Hoje, a maior parte dos modelos de IA foi criada pensando em usuários de fora da nossa realidade. Isso significa que exemplos, contextos e até sotaques muitas vezes não refletem a vida na América Latina.
Com o Latam-GPT, a ideia é mudar esse cenário. Ele poderá ser usado, por exemplo:
- Na educação, ajudando professores com materiais adaptados à realidade local.
- Na saúde, com sistemas de apoio treinados para a língua e o contexto do Brasil, do México ou do Chile.
- Na cultura, preservando e difundindo informações sobre povos indígenas e tradições regionais.
Além disso, como é um projeto aberto e colaborativo, qualquer instituição poderá criar versões personalizadas: uma voltada para a agricultura, outra para o turismo, outra para o setor público, e assim por diante.
A infraestrutura por trás da IA
Treinar um modelo desse porte exige um poder de processamento enorme. Para isso, o projeto conta com o novo centro de supercomputação da Universidade de Tarapacá, no Chile, que recebeu um investimento de US$ 10 milhões.
O cluster tem 12 nós com GPUs NVIDIA H200, uma infraestrutura inédita na região e capaz de rodar modelos de última geração. Isso não só fortalece o projeto, mas também representa um passo importante para a soberania tecnológica da América Latina — algo cada vez mais estratégico em um mundo digital dominado por poucos países.
E os próximos passos?
A primeira versão do Latam-GPT deve ser lançada ainda este ano. A expectativa é que, desde o início, ele já seja competitivo em tarefas gerais (traduções, resumos, respostas complexas), mas com vantagem em assuntos ligados à nossa região.
O projeto também planeja evoluir para modelos multimodais, capazes de lidar não só com texto, mas também com imagens e vídeos. E, no futuro, a meta é incluir também línguas indígenas, como guarani, mapuche e rapanui.
Um sonho para 2030
Quando questionado sobre o futuro, Álvaro Soto é claro: o sucesso será ver a IA ajudando jovens latino-americanos a aprender com exemplos da própria cultura, fortalecendo nossa identidade digital e reduzindo a dependência de modelos estrangeiros.
Mais do que tecnologia, o Latam-GPT é um movimento político e cultural: uma forma de mostrar que a América Latina não precisa ser apenas consumidora de inovações, mas pode também criar, compartilhar e liderar no campo da inteligência artificial.
👉 E você, acha que o Latam-GPT pode realmente ajudar a tornar a tecnologia mais inclusiva e próxima da realidade da América Latina?
